Para o médico radiologista Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, um número ajuda a entender por que a dor nas mamas é um dos principais motivos de procura por exames: estimativas citadas com frequência na literatura médica indicam que cerca de sete em cada dez mulheres terão o sintoma em algum momento da vida. A mastalgia, nome técnico da queixa, é comum e quase sempre benigna. Por isso, a associação automática entre dor e câncer precisa ser revista, sem que outros sinais sejam deixados de lado.
A ideia de que dor indica tumor
A crença mais difundida é a de que uma mama dolorida esconde um câncer. Na prática, a relação costuma ser inversa: o câncer de mama em fase inicial raramente provoca dor. A maior parte dos tumores é descoberta como nódulo indolor, alteração na mamografia ou mudança na pele, sem qualquer desconforto associado.
Entre as mulheres que procuram atendimento apenas por dor, sem outro sinal, o diagnóstico de câncer é encontrado em uma pequena minoria. Segundo Vinicius Rodrigues, o dado não deve servir para descartar a consulta, mas para reduzir a angústia de quem chega ao exame convencida de que o pior já aconteceu.
Dor que acompanha o ciclo menstrual
A forma mais comum é a dor cíclica, ligada às variações hormonais. Ela surge ou se intensifica nos dias que antecedem a menstruação, costuma atingir as duas mamas, sobretudo a parte externa e superior, e melhora quando o fluxo começa. Sensação de peso, inchaço e sensibilidade ao toque fazem parte do quadro.
O padrão tende a ser mais frequente entre os 30 e os 50 anos e diminui após a menopausa. Terapia hormonal e alguns anticoncepcionais podem intensificá-lo, o que vale ser comentado na consulta. Medidas simples, como sutiã com boa sustentação, redução de cafeína em mulheres que percebem relação com o sintoma e analgésicos comuns, aliviam a maioria dos casos. Anotar em um calendário os dias de dor ao longo de dois ou três ciclos ajuda o médico a confirmar o padrão.
Nem toda dor vem da mama
A dor não cíclica é mais localizada e não segue o calendário menstrual. Pode estar ligada a cistos, inflamações, traumas ou à mastite durante a amamentação. Em parte dos casos, porém, a origem nem está na mama.
Inflamação das cartilagens que unem as costelas ao esterno, tensões musculares do tórax, problemas na coluna e até refluxo podem gerar dor percebida como mamária. Na avaliação de Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, o exame clínico cuidadoso, que inclui a parede do tórax, costuma identificar essas causas e evitar exames de imagem repetidos sem necessidade.
Ausência de dor não é sinal de tranquilidade
O raciocínio inverso também é equivocado. Uma mama sem dor não garante a ausência de doença, já que a maioria dos tumores iniciais é indolor. Por esse motivo, o rastreamento com mamografia nas idades indicadas continua necessário mesmo para quem nunca sentiu qualquer desconforto.
Alguns sinais merecem avaliação independentemente de dor: nódulo novo e persistente, retração da pele ou do mamilo, aspecto de casca de laranja, vermelhidão que não melhora, secreção espontânea com sangue e caroço na axila.
Quando a dor pede investigação?
A dor localizada em um ponto fixo, persistente por mais de algumas semanas e sem relação com o ciclo menstrual, deve ser examinada. O mesmo vale para dor acompanhada de qualquer um dos sinais citados ou que surge em mulheres após a menopausa sem uso de hormônios.
O médico, então, define o exame mais adequado, geralmente ultrassonografia e, conforme a idade, mamografia. Conforme explica Vinicius Rodrigues, um resultado normal diante da dor também é informação útil, porque permite tratar o sintoma com segurança e manter o rastreamento no ritmo habitual.

