O risco cambial atinge o patrimônio antes de aparecer no balanço, e o Dr. Rodrigo Gonçalves Pimentel elucida a diferença entre proteger uma família e apostar na moeda. Proteção nasce de um desenho que reduz a dependência de uma única economia, enquanto aposta depende de acertar a direção do dólar em determinado período.
A confusão entre as duas atitudes explica decisões tomadas em momentos ruins. Famílias compram moeda estrangeira quando a cotação já subiu, por reação ao medo, e vendem quando a cotação cede, por impaciência. O resultado costuma ser o oposto do pretendido, com perda real em nome de uma segurança que nunca se estruturou.
De onde vem o risco cambial de uma família empresária?
Uma agroindústria que exporta recebe em dólar e gasta em real, ao passo que uma importadora vive a situação inversa. Em ambos os casos, existe descasamento entre a moeda da receita e a moeda da obrigação, e o descasamento é a fonte real do risco, não a variação em si.
Rodrigo Gonçalves Pimentel mapeia esse ponto como o início de qualquer conversa sobre proteção, porque patrimônio inteiramente medido em real fica exposto a um único conjunto de decisões econômicas. Quando juros, inflação e câmbio se movem juntos no mesmo país, não há diversificação interna capaz de compensar.
Casar a moeda da receita com a moeda da obrigação
O advogado Sideni Soncini Pimentel expõe a lógica do hedge natural com clareza operacional, já que a família que tem compromisso futuro em moeda estrangeira precisa de reserva na mesma moeda. Quem pretende manter um filho estudando no exterior por cinco anos assume uma despesa em dólar, e essa despesa pede lastro em dólar.

A proteção, nesse desenho, deixa de ser produto financeiro e passa a ser arquitetura patrimonial. Não se trata de comprar moeda e esperar, mas de manter parte dos ativos denominada na moeda em que os compromissos da família efetivamente vencem. O mesmo raciocínio vale para dívida contraída no exterior e para contratos de longo prazo indexados a referência estrangeira.
Proteção não é aposta na alta do dólar
Rodrigo Pimentel projeta o efeito de uma estrutura bem calibrada sobre o comportamento da família, porque quem tem reserva na moeda certa para de acompanhar cotação diária. A tranquilidade decorre da correspondência entre ativo e obrigação, não de previsão sobre o mercado.
Estruturas patrimoniais internacionais funcionam melhor quando o objetivo é definido antes do veículo. Sem clareza sobre qual compromisso está sendo protegido, a família contrata complexidade, paga manutenção e continua exposta ao mesmo desequilíbrio de origem. A ordem correta começa pela obrigação futura, passa pela moeda dessa obrigação e só então chega ao instrumento capaz de sustentá-la.
Horizonte sucessório muda o cálculo da moeda
Sideni Soncini Pimentel, advogado e desembargador aposentado, esclarece que o horizonte de uma sucessão raramente cabe em um ciclo econômico. Quando o patrimônio precisa sustentar duas ou três gerações, a exposição a uma só moeda deixa de ser questão de rentabilidade e passa a ser questão de continuidade. Décadas comportam mais de um ciclo de crise, e o planejamento precisa resistir a todos.
Rodrigo Gonçalves Pimentel frisa que a decisão sobre moeda precisa preceder a decisão sobre veículo, porque o instrumento é consequência do objetivo. Uma família com herdeiros no Brasil e compromissos no Brasil tem necessidade diferente de outra cujos beneficiários vivem em países distintos, com contas, escolas e tributos em moedas que não são o real.
Sobre os especialistas
Rodrigo Gonçalves Pimentel é advogado, empresário e sócio do Pimentel & Mochi Advogados Associados. Sua atuação envolve questões empresariais, patrimoniais, societárias e sucessórias relacionadas a empresários e famílias empresárias.
Sideni Soncini Pimentel é advogado, desembargador aposentado e integrante do Pimentel & Mochi Advogados Associados. Após uma trajetória de mais de quatro décadas na magistratura, iniciou uma nova fase profissional na advocacia, com atuação consultiva e estratégica.

