Antes mesmo de a colheita começar, o mercado internacional de grãos já reage a boletins climáticos divulgados meses antes do plantio. O motivo é simples: o El Niño e a La Niña alteram o regime de chuvas nas principais regiões produtoras do Brasil, e essa variação pesa diretamente sobre volume, qualidade e preço da safra. O empresário Wander Aguilera Almeida acompanha esses boletins com a mesma atenção que dedica às cotações internacionais.
Entender como esses dois fenômenos funcionam ajuda a compreender por que negociações de exportação de grãos costumam mudar de tom conforme o cenário climático se desenha. Confira a seguir como cada fase desse ciclo influencia a comercialização.
Como o El Niño altera o volume e a qualidade da safra brasileira?
O El Niño é caracterizado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico, fenômeno que costuma provocar chuvas irregulares e veranicos prolongados no Centro-Oeste e no Matopiba, região que reúne Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Wander Aguilera Almeida observa que essa irregularidade compromete justamente a fase de plantio da soja e atrasa a semeadura do milho de segunda safra.
No Sul do país, o efeito costuma ser oposto: chuvas acima da média favorecem a produtividade de soja e milho, mas também aumentam o risco de doenças foliares e dificultam a colheita em si, o que pode comprometer a qualidade final dos grãos colhidos. Em episódios anteriores de El Niño intenso, o país já registrou perdas de safra próximas a 8% em relação ao esperado, número suficiente para pressionar estoques globais e afetar o preço pago ao produtor pela mercadoria colhida naquele ano.
Que efeitos a La Niña provoca na oferta e no preço dos grãos?
A La Niña costuma produzir efeitos opostos ao El Niño na maior parte do território brasileiro, com secas atingindo especialmente o Sul do país durante o período de desenvolvimento das lavouras de milho e soja. Wander Aguilera Almeida trata esse fenômeno como um dos que mais exigem atenção redobrada na hora de planejar a comercialização.

A falta de umidade no solo durante a fase de crescimento reduz o rendimento das culturas nas regiões afetadas, o que tende a diminuir a oferta disponível para exportação e pressionar os preços internacionais, ainda que outras regiões produtoras consigam compensar parte da perda.
Um câmbio mais valorizado em relação ao dólar, combinado a uma safra menor, pode ainda desestimular a exportação e concentrar a venda da mercadoria no mercado interno, mudando por completo a estratégia de comercialização adotada naquele ciclo.
Como esses fenômenos afetam decisões do intermediador na hora de negociar?
As previsões climáticas são acompanhadas por Wander Aguilera Almeida desde antes do plantio, justamente porque decisões de comercialização tomadas cedo demais, sem considerar o cenário do ano, tendem a expor o produtor a riscos evitáveis.
Uma safra ameaçada por El Niño intenso, por exemplo, pode justificar negociar parte da produção antecipadamente, travando preço antes que a incerteza climática pressione o mercado. Já um cenário de La Niña favorável em determinada região pode indicar o momento certo de esperar por melhores condições de venda.
Nenhuma dessas leituras garante acerto absoluto, já que cada episódio climático apresenta intensidade e efeitos regionais diferentes dos anteriores, mas ignorar completamente esse fator deixa o produtor mais exposto a decisões tomadas sem informação relevante.
Por que o mercado internacional reage antes mesmo da colheita terminar?
O mercado de mercadorias agrícolas costuma precificar risco antes de qualquer perda de safra se confirmar, o que explica por que boletins de El Niño ou La Niña já movimentam a Bolsa de Chicago meses antes da colheita brasileira terminar. Wander Aguilera Almeida reforça que essa antecipação é parte natural do funcionamento do mercado internacional.
Uma frustração de poucos pontos percentuais na produção esperada pode reduzir significativamente a relação entre estoque e consumo global de determinada mercadoria, empurrando os preços para cima mesmo antes de a quebra de safra ser confirmada nas lavouras.
No fim, compreender El Niño e La Niña não elimina a incerteza natural do comércio internacional de grãos, mas transforma um fator fora de controle em informação que orienta decisões mais bem embasadas ao longo de cada safra.

