Mais de 70 mil brasileiras recebem o diagnóstico de câncer de mama a cada ano, segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer. Sob a ótica do Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, parte desses casos chega ao consultório em fase avançada não por falta de mamografia disponível, mas por ideias equivocadas sobre o exame. Algumas crenças circulam há décadas e fazem mulheres adiarem uma avaliação que poderia identificar a doença ainda pequena e com tratamento menos agressivo.
Mamografia não é só para quem tem caso na família
A crença mais comum é a de que o exame só importa para quem tem mãe, irmã ou avó com histórico da doença. Os números mostram o contrário. Os cânceres de mama hereditários, ligados a mutações genéticas transmitidas na família, respondem por uma parcela pequena do total, em torno de 5% a 10% dos casos.
A maioria das mulheres diagnosticadas não tem nenhum parente com a doença. Idade, fatores hormonais, obesidade após a menopausa, consumo de álcool e sedentarismo pesam no risco de forma mais ampla, e o envelhecimento é o principal deles. Por esse motivo, os programas de rastreamento definem a convocação pela faixa etária, e não pela história familiar.
A radiação do exame é baixa e controlada
O receio de que a mamografia cause câncer também aparece com frequência. A dose de radiação de um exame é baixa, comparável à radiação natural a que qualquer pessoa está exposta ao longo de algumas semanas. Equipamentos digitais e protocolos de controle de qualidade mantêm essa exposição dentro de limites seguros.
De acordo com Vinicius Rodrigues, o raciocínio correto compara o risco teórico da radiação com o benefício de encontrar um tumor em fase inicial. Nas faixas etárias indicadas para rastreamento, o saldo é amplamente favorável ao exame, e por isso ele segue como padrão nas diretrizes nacionais e internacionais.
Desconforto passageiro não é motivo para adiar
A compressão da mama durante o exame incomoda parte das mulheres e, em alguns casos, causa dor. Ela dura poucos segundos e tem função técnica: espalha o tecido, reduz a sobreposição de estruturas e permite usar uma dose menor de radiação, com imagem mais nítida.
Algumas medidas simples diminuem o desconforto. Agendar o exame para a semana seguinte à menstruação, quando as mamas costumam estar menos sensíveis, é uma delas. Avisar o profissional que faz o exame sobre a sensibilidade também ajuda a ajustar o posicionamento. Mulheres com próteses de silicone podem fazer o exame normalmente, com uma técnica adaptada que afasta o implante para avaliar melhor o tecido mamário.
O autoexame substitui a mamografia?
Não substitui. A palpação identifica nódulos que já atingiram tamanho suficiente para serem sentidos, enquanto a mamografia detecta lesões muito menores e microcalcificações, que não podem ser percebidas pelo toque. Na leitura de Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, a diferença de tamanho entre uma lesão palpável e uma lesão vista apenas na imagem costuma ser decisiva para o tipo de tratamento.
Conhecer o próprio corpo continua sendo útil. Notar mudanças na mama, como retração da pele, secreção pelo mamilo ou um nódulo novo, e procurar avaliação médica rapidamente faz parte do cuidado. A observação, porém, complementa o rastreamento, sem ocupar o lugar dele.
Resultado normal não encerra o acompanhamento
A última crença é a de que um laudo normal garante tranquilidade por muitos anos. O rastreamento funciona por repetição. Um tumor pode surgir entre um exame e outro, e o intervalo recomendado existe justamente para reduzir o tempo em que uma lesão cresce sem ser vista.
No SUS, a orientação atual prevê mamografia a cada dois anos para mulheres de 50 a 74 anos, e acesso ao exame a partir dos 40, em decisão conjunta com o profissional de saúde. Manter a regularidade também permite comparar imagens sucessivas, recurso que, para Vinicius Rodrigues, facilita a identificação de alterações sutis.

