Tiago Oliva Schietti, empresário do setor cemiterial e funerário, acompanha de perto um movimento que já não passa despercebido por quem observa a economia de serviços brasileira: o envelhecimento populacional deixou de ser uma projeção distante e se tornou uma realidade que pressiona diferentes cadeias produtivas, da saúde à previdência, passando por um setor historicamente discreto, mas cada vez mais relevante, o funerário.
Em 2025, o país já contabilizava aproximadamente 31,8 milhões de pessoas idosas, com a expectativa de vida nacional superando os 76 anos. Esse deslocamento na pirâmide etária, discutido há décadas em estudos populacionais, começou a produzir efeitos concretos sobre setores que antes operavam à margem do debate econômico mais amplo. O Brasil registra hoje cerca de 1,3 milhão de óbitos por ano, segundo dados do IBGE, número que tende a crescer de forma sustentada nas próximas décadas conforme a base populacional envelhece.
A pergunta que se impõe é direta: o setor funerário brasileiro está preparado para absorver essa demanda crescente sem comprometer qualidade de atendimento e capacidade operacional? A resposta começa a aparecer em mudanças estruturais que já estão em curso.
Por que a curva demográfica preocupa gestores do setor?
O envelhecimento populacional brasileiro não é um fenômeno isolado, mas parte de uma transição demográfica que deve levar o país a ter mais de 30% de sua população composta por idosos até 2050. Esse horizonte projeta um cenário de pressão estrutural sustentada sobre toda a cadeia de serviços funerários, que vai desde a capacidade física de cemitérios até a disponibilidade de crematórios em regiões metropolitanas.
Segundo a avaliação de especialistas vinculados a entidades como o Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil (Sincep), o crescimento do número de óbitos anuais impõe um desafio direto de infraestrutura. Cemitérios com capacidade limitada e crematórios concentrados em poucas regiões do país enfrentam uma equação conhecida em outros setores de serviços essenciais: demanda crescente, oferta que não se expande na mesma velocidade.
Por que famílias com membros mais idosos estão optando pelo planejamento funerário antecipado?
Na concepção de Tiago Oliva Schietti, empresário do setor cemiterial e funerário, a transformação demográfica também altera o perfil de quem busca esses serviços. Famílias com membros mais idosos passam a procurar planejamento funerário com maior antecedência, em uma lógica que se aproxima da forma como se organiza previdência privada ou seguro de vida.
Esse comportamento reflete uma mudança cultural mais ampla, na qual o planejamento de longo prazo passa a incluir decisões sobre o fim da vida como parte natural da organização financeira familiar. Pesquisa da Amar Assist Insurtech indica que cerca de 73% dos brasileiros já demonstram interesse em planos funerários, principalmente para evitar burocracia e gastos imprevistos em um momento de dor, o que aponta para uma demanda crescente por produtos de pré-pagamento e assistência familiar de longo prazo.

Da receita pontual ao modelo de receita recorrente
Um dos efeitos mais relevantes dessa transição demográfica é a migração de um modelo de receita pontual, pago no momento do óbito, para modelos de receita recorrente, baseados em planos de assistência e produtos de pré-pagamento. Essa mudança altera a lógica financeira das empresas do setor, que passam a operar com fluxo de caixa mais previsível e horizonte de planejamento mais longo.
Essa transformação financeira aproxima o mercado funerário de práticas já consolidadas em segmentos como seguros e saúde suplementar, nos quais a previsibilidade de receita é elemento central de sustentabilidade do negócio. Sob a perspectiva de empresários do setor cemiterial e funerário, como Tiago Oliva Schietti, esse tipo de adaptação tende a se intensificar conforme a curva de envelhecimento avança, exigindo das empresas maior sofisticação na gestão de carteiras de clientes e obrigações de longo prazo.
Como as empresas do setor funerário estão se preparando para o aumento da demanda?
O crescimento sustentado da demanda exige das empresas do setor um exercício de planejamento que poucas vezes foi necessário no passado: dimensionar corretamente a capacidade de jazigos, ampliar a oferta de cremação e investir em sistemas de gestão que permitam acompanhar, em tempo real, a ocupação dos espaços disponíveis. Por este prospecto, esse dimensionamento deixou de ser uma decisão isolada e passou a integrar o planejamento estratégico de médio e longo prazo das organizações.
A combinação entre crescimento de demanda e necessidade de previsibilidade financeira também acelera a profissionalização da gestão no setor, informa Tiago Oliva Schietti. Empresas familiares, historicamente predominantes no segmento, passam a adotar práticas de governança, indicadores de desempenho e processos de sucessão mais formais, movimento comum em setores que atravessam fases de consolidação.
O que está impulsionando a transformação do setor funerário brasileiro?
A transformação do setor funerário brasileiro ocorre de forma discreta, distante dos grandes holofotes do noticiário de negócios. Ainda assim, os números indicam um mercado em expansão real, sustentado por uma tendência demográfica que não dá sinais de reversão no curto e médio prazo. O desafio, segundo avaliações relacionadas ao contexto de atuação do segmento funerário, não é apenas atender ao volume crescente de demanda, mas fazê-lo com qualidade de serviço, eficiência operacional e modelos financeiros sustentáveis.
Esse cenário coloca empresários como Tiago Oliva Schietti diante de uma equação que exigirá, nos próximos anos, investimento contínuo em gestão, tecnologia e capacitação profissional em toda a cadeia funerária brasileira. A curva demográfica que hoje pressiona o setor tende a se consolidar como uma das forças estruturais mais importantes para definir quais empresas conseguirão crescer de forma sustentável diante de uma transformação que, ao contrário de outros ciclos econômicos, não deve se inverter.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez.

