Huawei apresenta novo supercomputador de inteligência artificial e amplia seus investimentos em infraestrutura de computação, intensificando a disputa tecnológica entre China e Estados Unidos.
A Huawei Technologies apresentou nesta quinta-feira (17), durante a abertura da conferência Huawei Connect 2026, em Xangai, um novo sistema de computação voltado para inteligência artificial batizado de Atlas 960E SuperPoD. Segundo a empresa, trata-se do primeiro sistema da indústria baseado em óptica quase integrada, tecnologia conhecida pela sigla NPO, projetada para acelerar o treinamento e a operação de modelos de inteligência artificial que se aproximam da marca de 10 trilhões de parâmetros. O anúncio foi feito pelo vice-presidente do conselho e presidente rotativo da Huawei, David Wang, durante palestra intitulada “Avançando o Mundo Agêntico, Construindo uma Base Sólida de Silício”.
O evento, que ocorre entre os dias 17 e 19 de setembro no Centro de Exposições e Convenções Shanghai World Expo e no Shanghai Expo Center, é a principal vitrine anual da Huawei para apresentar sua estratégia de infraestrutura de inteligência artificial. Segundo a companhia, o novo sistema combina a tecnologia de interconexão UnifiedBus, também chamada internamente de Lingqu, com o sistema óptico Hi-ONE desenvolvido pela própria Huawei, utilizando endereçamento de memória unificado que permite que os recursos computacionais operem de forma mais parecida com um único sistema do que com máquinas separadas.
Capacidade de processamento e arquitetura do novo sistema
De acordo com informações divulgadas pela empresa, o Atlas 960E SuperPoD pode escalar até 4.096 unidades de processamento neural, entregando até 8 exaflops de desempenho em precisão FP8 e 16 exaflops em precisão FP4, com capacidade de até 1 petabyte de memória de alta largura de banda. O sistema utiliza 5.500 módulos Hi-ONE, cada um capaz de transmitir até 7,2 terabits por segundo, substituindo o que, em um projeto convencional, exigiria cerca de 48 mil módulos ópticos plugáveis do padrão 800G.
Segundo a Huawei, essa arquitetura reduz o consumo de energia em mais de 550 quilowatts em comparação a sistemas tradicionais, dobra o tempo médio entre falhas e eleva a disponibilidade do sistema para 99,8%. A empresa também informou que múltiplos SuperPoDs Atlas 960E poderão ser conectados entre si, formando clusters ainda maiores por meio das redes UnifiedBus e RoCE. Segundo a companhia, essa arquitetura pode conectar até 512 mil processadores de inteligência artificial, alcançando até 1 milhão de processadores quando utilizada uma topologia de múltiplos canais.
Roadmap de chips antecipado em relação ao cronograma original
Durante o evento, a Huawei também anunciou planos para acelerar o desenvolvimento de sua linha de processadores Ascend voltados para os sistemas SuperPoD. O Ascend 960DT deve chegar ao mercado no primeiro trimestre de 2027, três trimestres antes do previsto no cronograma original da empresa. Já o Ascend 960PR, que promete desempenho ligeiramente superior, deve ser lançado no terceiro trimestre de 2027, um trimestre antes do inicialmente planejado. A companhia também adiantou que os processadores Ascend 970 e Ascend 980 devem chegar em 2028 e 2029, respectivamente, dando continuidade ao roteiro de longo prazo de sua linha de chips voltados para inteligência artificial.
O anúncio ocorre em um contexto de disputa tecnológica cada vez mais acirrada entre Estados Unidos e China no campo da inteligência artificial. Restrições impostas pelo governo americano à exportação de chips avançados e de equipamentos de fabricação de semicondutores têm limitado o acesso de empresas chinesas aos processadores mais sofisticados produzidos pela Nvidia, levando companhias como a Huawei a buscar compensar essa limitação por meio do design em nível de sistema, conectando um número cada vez maior de processadores domésticos e aprimorando as redes e o software ao redor dos chips.
Corrida tecnológica ganha novo capítulo às vésperas de encontro entre Trump e Xi Jinping
O momento do anúncio chamou atenção por coincidir com a proximidade de um encontro previsto entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o presidente chinês, Xi Jinping, em Washington, marcado para o dia 24 de setembro. Analistas do setor avaliam que, embora essa abordagem baseada em sistemas integrados não elimine completamente a diferença de desempenho em relação aos chips mais avançados da Nvidia no nível individual, ela pode oferecer aos desenvolvedores chineses de inteligência artificial uma infraestrutura doméstica cada vez mais capaz, reduzindo a dependência de fornecedores estrangeiros.
Para Charlie Dai, analista de tecnologia da consultoria Forrester Research, o avanço representa “um marco significativo” que sinaliza um impulso mais forte rumo à autossuficiência e à resiliência diante das restrições de exportação impostas pelos Estados Unidos. A Huawei já havia anunciado, durante a edição de 2025 da mesma conferência, planos para lançar os SuperPoDs Atlas 950 e 960 ao longo dos dois anos seguintes, e o anúncio desta quinta-feira confirma que parte desse cronograma está sendo antecipada.
A companhia também informou que sua plataforma de software CANN passou a adotar um modelo de desenvolvimento sustentado e conduzido pela comunidade de código aberto, medida que, segundo a empresa, tem tornado a plataforma mais acessível para desenvolvedores externos. O movimento se soma à estratégia mais ampla da Huawei de construir um ecossistema aberto de computação em torno de seus próprios processadores, buscando atrair desenvolvedores para além do mercado chinês.
Repercussão no setor de tecnologia
A apresentação do Atlas 960E SuperPoD tem sido amplamente comentada por veículos especializados em tecnologia ao redor do mundo, que destacam o ritmo acelerado de desenvolvimento da Huawei em meio às restrições impostas pelos Estados Unidos. A expectativa do setor é de que os próximos meses tragam mais detalhes sobre a disponibilidade comercial dos novos processadores e sobre a adoção da nova arquitetura por clientes corporativos e governamentais na China e em outros mercados onde a empresa mantém presença relevante.
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